GUANGZHOU, outubro [XX] — Durante décadas, o selo "Made in China" foi a espinha dorsal da indústria global de brinquedos, com o país respondendo por mais de 70% das exportações mundiais. Mas hoje, uma profunda mudança está em curso: tensões geopolíticas, aumento dos custos de produção e demandas por resiliência na cadeia de suprimentos estão impulsionando as empresas de brinquedos a irem além de um modelo centrado na China, rumo a uma "produção global descentralizada". Vietnã, México e outros polos de manufatura emergentes estão se consolidando como importantes bases secundárias de produção, enquanto as empresas lidam com as complexidades de coordenar redes de suprimentos em vários países. Novos dados do setor mostram que 62% dos principais exportadores chineses de brinquedos já estabeleceram ou planejam estabelecer fábricas no exterior até 2026, um aumento em relação aos 38% registrados em 2020, segundo a Associação Chinesa de Brinquedos e Produtos Infantis (CTJPA).
Fatores que impulsionam a reestruturação: geopolítica e pressões de custos
Duas forças sobrepostas estão acelerando a mudança na cadeia de suprimentos: os persistentes riscos geopolíticos e as crescentes pressões de custos na China.
Na frente geopolítica, as tensões comerciais entre as principais economias têm interrompido as rotas de exportação tradicionais. Os EUA, o maior mercado de brinquedos do mundo, mantêm tarifas de até 25% sobre certas categorias de brinquedos chineses desde 2018, sem sinais de redução imediata. "Essas tarifas reduziram nossas margens de lucro em 8 a 10% nos pedidos destinados aos EUA", afirma Wang Jian, diretor da cadeia de suprimentos do Alpha Group, com sede em Shenzhen, um dos principais fabricantes globais de brinquedos. A União Europeia também endureceu as regulamentações de importação, exigindo certificações de conformidade adicionais para brinquedos chineses, aumentando os prazos de entrega e os custos administrativos.
A pressão dos custos na China impulsionou ainda mais essa mudança. Os custos médios de mão de obra nos polos de fabricação de brinquedos da China — como Guangdong e Zhejiang — aumentaram 6,5% ao ano nos últimos cinco anos, atingindo entre £380 e £450 por mês em 2025, de acordo com dados da CTJPA. Enquanto isso, os preços das matérias-primas (incluindo resinas plásticas e componentes eletrônicos) têm oscilado entre 12% e 18% ao ano desde 2022, devido a interrupções na cadeia de suprimentos global. Em contraste, os custos de mão de obra nas zonas industriais do Vietnã giram em torno de £200 a £280 por mês, e os salários na indústria manufatureira do México (entre £300 e £350 por mês) oferecem vantagens de custo para o acesso ao mercado norte-americano.
"A descentralização não se trata apenas de custos — trata-se de sobrevivência", explica Li Ming, CEO da Guangzhou Auldey Toys, que inaugurou uma fábrica no Vietnã em 2023. "Ter múltiplas bases de produção nos permite evitar o impacto das tarifas e manter as linhas de suprimento abertas caso uma região enfrente interrupções, como o lockdown de Xangai em 2022, que atrasou nossos embarques por seis semanas."
Centros-chave: Vietnã e México lideram o layout da segunda base
O Vietnã e o México emergiram como os destinos mais populares para a expansão internacional de empresas de brinquedos, cada um oferecendo vantagens exclusivas adaptadas a diferentes mercados.
Vietnã: a potência industrial do Sudeste Asiático
Graças à sua localização estratégica, acordos comerciais preferenciais e ecossistema industrial em expansão, o Vietnã se tornou uma das principais opções para atender aos mercados do Sudeste Asiático e da Europa. O setor de fabricação de brinquedos do país cresceu 15% ao ano desde 2020, com as exportações atingindo US$ 3,2 bilhões em 2024, segundo o Departamento Geral de Estatísticas do Vietnã.
Grandes empresas chinesas de brinquedos já estabeleceram uma forte presença no país. A fábrica da Alpha Group na Cidade de Ho Chi Minh, inaugurada em 2024, produz atualmente 30% dos brinquedos de pelúcia e figuras de ação da empresa, destinados principalmente aos mercados do Sudeste Asiático (incluindo Indonésia e Malásia) e à União Europeia. "Localizar a produção aqui reduziu nossos custos de frete em 40% em comparação com a exportação da China para Jacarta", observa Wang Jian. A fábrica também se beneficia dos acordos de livre comércio (ALC) do Vietnã com a UE e a ASEAN, que eliminam as tarifas sobre a maioria das exportações de brinquedos.
O governo do Vietnã tornou a proposta ainda mais atraente com incentivos fiscais: fabricantes estrangeiros de brinquedos desfrutam de 4 a 10 anos de isenção do imposto de renda corporativo, seguidos por 5 a 10 anos de redução de 50% nos impostos. No entanto, ainda existem desafios, incluindo a escassez de mão de obra qualificada (principalmente na montagem de brinquedos eletrônicos) e o número limitado de fornecedores locais de componentes de alta qualidade, o que obriga muitas empresas a importar de 40% a 60% das matérias-primas da China.
México: Polo de nearshoring para a América do Norte
O México se tornou a base preferida das empresas de brinquedos que visam o mercado americano de brinquedos, avaliado em US$ 38 bilhões, aproveitando sua proximidade e o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). O nearshoring — localizar a produção perto dos mercados-alvo — tornou-se uma expressão comum no setor, já que as fábricas mexicanas conseguem entregar brinquedos aos varejistas americanos em 3 a 5 dias, em comparação com os 25 a 35 dias necessários para a produção a partir da China.
A Auldey Toys inaugurou uma fábrica em Monterrey, no México, em 2025, com foco em brinquedos educativos e conjuntos de construção para o mercado americano. "O USMCA nos permite evitar as tarifas americanas sobre brinquedos chineses, e os prazos de entrega mais curtos nos permitem responder mais rapidamente à demanda do varejo — como aumentar a produção para as temporadas de festas", afirma Li Ming. A fábrica agora fornece 20% dos pedidos da Auldey nos EUA, com planos de aumentar esse percentual para 40% até 2027.
As vantagens do México vão além da geografia: seu setor manufatureiro conta com mão de obra qualificada (com experiência em eletrônica e moldagem de plástico) e acesso às redes logísticas dos EUA. No entanto, os custos mais elevados de energia e as preocupações com a segurança em algumas regiões têm levado as empresas a investir em segurança no local e em soluções de energia renovável para mitigar os riscos.
Gestão da Colaboração Multipaís: Desafios e Estratégias
Embora a produção global descentralizada ofereça resiliência, ela também introduz desafios complexos de coordenação. As empresas de brinquedos precisam lidar com regulamentações diferentes, diferenças culturais e problemas de visibilidade da cadeia de suprimentos para garantir operações tranquilas.
Principais desafios
Visibilidade da cadeia de suprimentos:Rastrear componentes em vários países — como peças plásticas da China, componentes eletrônicos do Vietnã e embalagens do México — pode causar atrasos se não for gerenciado adequadamente. Uma pesquisa da CTJPA de 2024 revelou que 45% dos exportadores de brinquedos com fábricas no exterior apontaram a "baixa visibilidade da cadeia de suprimentos" como seu principal desafio.
Controle de qualidade:Manter a qualidade consistente em fábricas de diferentes países é outro obstáculo. "Os trabalhadores vietnamitas têm níveis de qualificação diferentes dos trabalhadores chineses, por isso tivemos que investir em treinamento adicional para garantir que nossos brinquedos atendam aos padrões de segurança da UE", explica Wang Jian.
Conformidade regulatória:Cada país possui suas próprias normas de segurança (como os padrões da Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos EUA e a norma EN 71 da UE) e regras tributárias, o que exige que as empresas contratem especialistas locais para evitar o descumprimento dessas normas.
Estratégias de Gestão Eficazes
Para superar esses desafios, as empresas de brinquedos estão adotando estratégias inovadoras:
Digitalização:Muitas empresas estão utilizando sistemas de gestão da cadeia de suprimentos (SCM) baseados em nuvem — como SAP e Oracle — para rastrear estoques, cronogramas de produção e remessas em tempo real. O Grupo Alpha utiliza uma ferramenta de SCM com inteligência artificial que alerta as equipes sobre possíveis atrasos (como a escassez de componentes no Vietnã) e sugere fornecedores alternativos. "Isso reduziu nossos atrasos na produção em 30%", afirma Wang Jian.
Equipes de localização:Contratar gerentes e engenheiros locais tornou-se crucial para o sucesso. A fábrica da Auldey no México emprega uma equipe de operações local que cuida da conformidade regulatória, das relações trabalhistas e da logística, enquanto a sede na China supervisiona a estratégia global. "As equipes locais entendem melhor o mercado e a cultura — elas nos ajudaram a negociar melhores acordos com fornecedores locais", observa Li Ming.
Parcerias estratégicas:As empresas estão firmando parcerias com fornecedores locais para reduzir a dependência das importações chinesas. O Grupo Alpha assinou acordos com dois fabricantes vietnamitas de plástico para o fornecimento de 30% de suas matérias-primas, reduzindo prazos de entrega e custos de transporte.
Reservas de emergência:Para responder a interrupções inesperadas (como desastres naturais ou atrasos nas fronteiras), as empresas mantêm um estoque de emergência de 10 a 15% de componentes essenciais em cada base de produção. "Durante o furacão Otis no México, em 2024, nosso estoque de emergência nos permitiu manter a produção em funcionamento por duas semanas", acrescenta Li Ming.
Tendência futura:O modelo "China + N" torna-se comum.
Especialistas do setor preveem que o modelo "China + N" — mantendo a China como base principal de produção e adicionando um ou dois polos no exterior — se tornará o padrão para grandes exportadores de brinquedos. A China continuará sendo fundamental, graças à sua cadeia de suprimentos consolidada, mão de obra qualificada e escala: espera-se que 60% a 70% da produção global de brinquedos ainda esteja concentrada na China até 2030, mas com uma rede mais diversificada de bases secundárias.
"A China não está sendo substituída, mas sim complementada", afirma Sarah Lee, analista sênior da Euromonitor International. "As fábricas chinesas continuarão a lidar com a produção complexa e em grande volume (como brinquedos eletrônicos), enquanto o Vietnã e o México se concentrarão em produtos específicos para o mercado e em pedidos com entrega rápida."
A sustentabilidade também desempenhará um papel mais importante nas decisões da cadeia de suprimentos. Muitas empresas estão projetando suas fábricas no exterior para usar energia renovável (como energia solar no Vietnã) e reduzir as emissões de carbono, alinhando-se às regulamentações de sustentabilidade da UE e dos EUA. "Nossa fábrica no México funciona com 50% de energia solar, o que não só reduz custos, mas também torna nossos produtos mais atraentes para varejistas ecologicamente conscientes, como Target e Walmart", diz Li Ming.
À medida que a indústria de brinquedos navega por uma nova era de produção global, a chave para o sucesso reside no equilíbrio: aproveitar os pontos fortes de cada base de produção, investir em ferramentas digitais para coordenação e manter-se ágil em resposta às mudanças geopolíticas e de mercado. Para os exportadores, a transição do "Fabricado na China" para o "Fabricado Globalmente" deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade para prosperar no competitivo mercado global de brinquedos.
Data da publicação: 19/09/2025